sábado, 29 de novembro de 2008

The Free Culture Game - Um manifesto metalingüístico?

Um dos trabalhos mais impactantes (embora não tão difundido) no mundo dos games nos últimos tempo, em minha opinião, é o recente jogo da Molleindustria, "The Free Culture Game ". Na página que o hospeda, o jogo é entendido como uma "teoria jogável". É uma alcunha interessante, que brinca até com epistemologias. Como uma teoria pode ser algo "jogável"? Como novas mídias podem ocupar espaços que antes eram exclusivos do meio impresso? Alguém aceitaria um jogo desses como monografia de fim de curso em uma área de humanas? Cadê tudo que é necessário para uma teoria passar a ter validade na sociedade: fundamentação teórica, justificativa, metodologia, etc? Ou seja, essa provocação, por si só, já vale para questionarmos nossas atuais epistemologias. É possível para todo o sempre ficarmos falando sobre novas tecnologias do mesmo modo engessado que construímos ciência até hoje? As mudanças devem ocorrer quando e em quê?

Deixando essa discussão em aberto para debate (afinal, não serei eu a dar respostas para isso), apresento a minha interpretação sobre o jogo, defendendo os motivos que me levaram a considerá-la.

Penso no jogo em questão como um "Manifesto metalingüístico". Para mim, a teoria não está sendo feita ali, no jogo, mas ela é prévia ao jogo. A teoria estava na cabeça de quem construiu o jogo, por assim dizer. O jogo é um instrumento para apresentar a teoria (que está contido no movimento da Cultura Livre), convencer o interlocutor (e jogador) a respeito dela e mobilizá-lo a nortear suas ações segundo a lógica apresentada. Ora, isso são caraterísticas típicas de um manifesto.

Primeiro, pode-se partir do próprio título que, como é comum, anuncia seu intento. O jogo da "cultura livre" apregoa justamente a favor de uma cultura que não esteja subordinada às corporações e ao copyright, para se poder promover a reflexão e a troca de idéias dentro de uma sociedade.

Em segundo, nota-se o caráter persuasivo contido no jogo. Bem, o foco de uma teoria é na informação. Aqui, há um foco (que é próprio de jogos, aliás) no receptor. Apesar da apresentação inicial de conceitos, o que o jogador irá fazer, de fato, é se mobilizar para agir de acordo com o que está sendo defendido: compartilhar conhecimento em prol da cultura e em detrimento da indústria cultural, que massifica e encaixota os olhares sobre o mundo. Não está apenas sendo dito que isso ocorre, está se convocando o jogador a "militar" nessa tarefa contra a indústria cultural.

Outra característica do manifesto: o problema em questão é identificado (o modo com a indústria cultural opera em nossa sociedade) e as conseqüências disso são analisadas. Mas não se pára por aí. O jogo convoca o jogador não a uma reflexão "ampla" sobre os vários pontos de vista sobre o assunto, mas o conduz a acreditar e reproduzir aquele que está sendo apresentado. Com isso, o jogo tenta angariar "militantes" para o seu fim: driblar a indústria cultural por meio do Creative Commons.

E em que medida isso é relevante? Bem, quando pensamos em um manifesto impresso, o que se tem não são mais que projeções apresentadas pelo autor (sendo ele uma pessoa ou um grupo). O interlocutor tem que acatar previamente aquela "verdade", pôr em prática por "fé" e só então, depois de agir conforme pedido, comprovar se as previsões e os acontecimentos bateram.

Há uma significativa mudança discursiva quando se pensa em uma persuasão baseada em código-fonte. O jogador não apenas lê e interpreta algo que está previamente rígido, fixo. Exige-se dele ESCOLHAS, e são essas escolhas que vão direcionar o que é apresentado em tela. Ou seja, o jogador é convocado à ação. Tê-lo agindo (embora de uma maneira conceitual e abstrata, obviamente, já que ele não está modificando estruturas sociais a partir da experiência com o jogo) parece ser um modo eficaz de criar em seu pensar a idéia de que AQUELA AÇÃO É POSSÍVEL, de que aquilo que ele experienciou no ciberespaço pode se realizar na prática.

É um recurso a ser (muito bem) pensado e desenvolvido por criadores de jogos e pessoas da área interessadas em promover reflexão crítica. Cria-se um mundo novo, um conjunto de possibilidades novas. A partir de jogos e simulações, por exemplo, é possível desenvolver uma sociedade anarquista, uma sociedade coletora, uma sociedade comunista, uma sociedade pós-apocalíptica e, a partir dessas experiências, evidenciar que os nossos arranjos sociais atuais não são os únicos possíveis. Afinal, os jogos atuais, ao se repetirem e repetirem valores vigentes não estão sendo apenas pouco criativos. Estão contribuindo para a reprodução das idéias de que o russo é mafioso, a América Latina é um antro de corrupção, o expansionismo é A ferramenta para o sucesso de uma nação, a economia é baseada na troca de recursos ilimitados, a cultura só pode ser adquirida por meio do consumo e da compra, o...




domingo, 23 de novembro de 2008

Link para a Dissertação: fora do ar :(

Bom, alguém pode ter notado que o link para minha dissertação, no site Gamecultura, está, por algum motivo, fora do ar.

O problema certamente será resolvido. Provavelmente, em breve. Se alguém quiser, nesse meio tempo, uma cópia de meu trabalho, basta me pedir por e-mail.

Abraço a todos os poucos visitantes... ;)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Jogos digitais x Meio ambiente

Hoje eu assisti ao documentário "A história das coisas".

Fiquei pensando em maneiras como a prática de jogar se relaciona com o consumismo e com todos os problemas que o circundam.

De um lado, os grandes jogos, que exigem grandes equipes, grandes indústrias já produzem, em sua fabricação um gasto considerável de recursos - desde energia, folhas de papel, cds, dvds, passando pelo "china in box" (com todos seus garfinhos de plásticos, molhos prontos, isopor térmico, etc) que o funcionário, por não ter tempo disponível para outro tipo de refeição, acaba consumindo.

Mas talvez essa seja a parte menos assustadora. Dentre os usos não especializados de um computador (penso em arquitetos, por exemplo, ou laboratórios que precisam de processadores rápidos para diferentes tipos de simulação), certamente os jogos são aqueles que mais exigem da máquina. É o processador, é a placa de vídeo, a memória, o espaço. Os jogos novos, baladados, alardeados como as principais novidades do mercado, via de regra, são os jogos que exigem mais recursos e que deixam seu computador obsoleto mais rapidamente.

Eu queria jogar, por exemplo, Fallout 3. Adoro a série, tenho uma fixação pelo sarcasmo, pelo pós-apocalíptico, etc. etc. Mas meu processador não agüentaria o jogo. E ele nem é o mais avançado dos jogos.

Fico pensando quantos milhões de adolescentes não trocam (leia-se: pedem para os pais trocarem) pelo menos uma vez ao ano o maquinário de seus computadores para poder jogar mais um jogo de FPS (só que mais realista!) ou mais outro RTS (só que com mais recursos) que não apresentam mudanças, a não ser na perfumaria, frente a um Doom ou a um Dune 2.

Por isso, continuar na marcha pró-engenhosidade, priorizando o que faz do videogame um jogo - ou seja, sua estrutura lúdica, seu conjunto de regras, valores, interações - e colocando em segundo plano as "aparências" é mais que valorizar o bom profissional. É mais que favorecer reflexão crítica, desenvolver a imaginação, ampliar o arcabouço discursivo do jogador.

É cuidar do meio ambiente.