quinta-feira, 3 de abril de 2008

Vencer? Ou morrer tentando?

Qualquer manual de criação de jogos que se preze vai falar que um bom videogame é aquele que contrabalança o desafio e a dificuldade com os recursos oferecidos ao jogador, a premiação e a habilidade prevista desse. Mas e daí? E, se, só de sacanagem, alguém quiser criar um jogo que não tem nada de balanceado?

Bem, já tiveram essa idéia. Uma das referências no mundo cibernético de jogos que vão nessa linha é o I Wanna Be The Guy.

A história não podia ser mais simples – o protagonista, como indica o título, simplesmente quer ser O CARA e para tanto, tem que passar pelas mais difíceis provações. Agora, não há tempo para você se adaptar e ir melhorando, pegando o jeito da coisa. Não sacou o jogo? Bem, vai ficar eternamente na primeira tela. Isso, porque o jogo é extremamente difícil, trazendo por muitas vezes, injustiças – surpresas como o aparecimento de espinhos onde, até então, não tinha nada e nem indicava a possibilidade de tê-los. Para quem não quer jogar, mas quer sentir qual o nível do jogo, recomendo esse vídeo de um percurso de um gamer.

Ok. Mas qual a graça de um jogo quase impossível? Na verdade, o desafio, altíssimo, prevê um jogador de bastante habilidade e paciência. Ou seja, não é que o jogo esteja desequilibrado, mas a sua audiência é muito específica. Isso serve para desmascarar, em partes, essa idéia de “equilíbrio”, de “fluência”, como pressupõe tutoriais feito o What is a Good Game, de Overmars. Há um público para esse jogo, e se houvesse outro ainda mais difícil, teria mais gente para tentá-los. Gente que – como o personagem – desejaria ser O CARA, ao menos no mundo dos videogames, dos rankings e do youtube.

Mas eu introduzi essa questão para falar, na realidade de um outro jogo, de estrutura semelhante, mas que me agrada um pouco mais - The Unfair Platformer. O gráfico é mais precário em muitos aspectos, há menos níveis e, como é possível de observar dentre os usuários do Kongregate, muitas vezes ele é tratado como cópia ou como artigo inferior ao IWBTG.

Eu não vou por esse caminho. Além de ser fascinado pela música (todo ex-jogador de Sonic vai compartilhar da minha opinião), vejo nele uma outra proposta. IWBTG é um jogo para ser dificílimo, para dar o prazer de se sentir superior, vencedor, a cada passo. Seu foco está na dificuldade, trazendo pitadas de injustiça para complementá-lo.

The Unfair Platformer, como o nome diz, é um jogo criado para ser injusto. Seu princípio é o de "sacanear" o jogador. Isso, do ponto de vista da linguagem, é extremamente subversivo. Todas as lógicas prévias que o jogador leva para o jogo podem, pouco a pouco, serem desconstruídas. Todo espaço é espaço de suspeita. Tudo parece aleatório, detonando o conhecimento do “gênero” plataforma, que os gamers trazem desde o primeiro Mario Bros.

Especulando mais além, pode-se dizer que o jogo imprime uma outra lógica, exige outro trabalho cognitivo do jogador. A base do uso de jogos é tentativa e erro a partir de deduções e conhecimentos prévios. Se uma pedra verde mata, evite as pedras verdes. Em “Unfair Platformer”, a constante e aleatória mudança dos valores de cada signo exige muito mais memorização e construção de hipóteses localizadas. O que serve para três moedas pode não servir para a quarta. É certo que há uma estrutura – montada a partir de uma lógica mais constante – que sustenta tais subversões. Mas o recado, do início ao fim é de que “você não sabe o suficiente”. É necessário morrer – e várias vezes – para aprender. E, caso você vá jogar de novo depois de um tempo – morrerá tudo de novo, a menos que tenha a famosa memória de elefante.

Ou seja – o que o jogo evidencia é que há um tipo de letramento específico para jogar, e esse letramento é ligado a “tipos relativamente estáveis de enunciado”, que é a definição de “gênero do discurso” segundo Bakhtin. Um jogo que subverta essa lógica desestabiliza por completo o jogador, que tem que rearranjar seus esquemas interpretativos para voltar a “ter sucesso” na partida. Aliás, a própria noção de sucesso muda – aqui, no caso, é morrer o menos possível a cada checkpoint.

2 comentários:

Janos disse...

Adorei este post, muito bem escrito. Conhece o Karoshi, um jogo de plataforma em que seu objetivo não é sobreviver, mas sim se matar em níveis de dificuldade crescente?

Henrique Magnani disse...

Não conhecia. Mas já estou baixando eu vou testá-lo.

Valeu pela dica!