terça-feira, 18 de março de 2008

ICED - "I Can End Deportation" - Análise




ICED - "I Can End Deportation" - é mais um jogo sério que pode ser encaixado na definição de "jogos digitais críticos". Esse termo engloba jogos que, na sua interação, procuram instigar a reflexão social crítica de seu(s) jogador(es). É um jogo ambientado nos EUA - como não raramente o são os artefatos culturais produzidos naquele país - mas com uma temática pretensamente global: a imigração e a deportação dos chamados "residentes ilegais".

Digo pretensamente por que, ao se deparar com o jogo, vê-se que seu direcionamento está muito mais atento a "educar" o cidadão norte-americano sobre as injustiças da deportação no país para tentar fortalecer a luta em defesa dos direitos humanos nesse caso em específico. Claro, o jogador que é de fora aprende também algumas coisas pontuais e, além disso, pode fazer ciberneticamente sua militância contra esse absurdo (o que não deve surtir muito efeito para os altos salões do governo Norte-Americano).

Ele aparece como um problema global e chega ao terceiro mundão mais, portanto, por conta do fato de que polêmicas que vêm de lá viram muito mais facilmente notícia por conta da posição privilegiada do país frente ao mundo.

Mas o que importa é que o jogo chegou às minhas mãos (ou minhas mãos chegaram ao jogo, considerando que nós é que geralmente buscamos, no meio digital, aquilo que nos interessa) e resolvi estrear o blog com ele. Aliás, com uma análise mais geral dele a partir de conceitos desenvolvidos em minha dissertação de mestrado.

Pode-se dizer que os gráficos são bastante atraentes e, de início, podem levar o jogador a uma sensação de imersão. Porém, no decorrer do jogo, fica a sensação de que gastou-se tempo demais com gráfico e de menos com a própria dinâmica do jogo.

No fundo, no fundo, o jogo não passa de uma espécie de quiz em um ambiente virtual. O "tema" do quiz é relacionado à imigrantes e deportação, e possuem um apelo de militância e conscientização. O próprio modo como as perguntas e as situação são postas, somadas à dica inicial de permanecer "low-profile" já indicam, praticamente, o que deve ou não ser respondido, acabando com qualquer surpresa ou graça no jogo. Nada ali parece inesperado ou aleatório.

Para não dizer que o jogo se limita a esse quiz, vale lembrar que na soma de perguntas erradas ou de ações tomadas de modo incorreto aumenta-se o número de policiais na cidade. Nesse momento, o jogo aquire ares de PACMAN. Em vez das tradicionais pílulas, no entanto, o objetivo do jogador é continuar indo atrás de perguntas sobre deportação para responder, além de fazer "boas ações" do tipo "ajudar velhinhas a atravessar a rua".

Qualquer tropeço nessa etapa, o imigrante é enquadrado por um agente e vai parar num entreposto para imigrantes ilegais, uma espécie de presídio para imigrantes. Nessa segunda parte do jogo, adivinhem? O jogador tem que continuar respondendo perguntas e arrecadando pontos para marcar um julgamento e sair da detenção (para voltar ao PAC-QUIZ). O detalhe é que procurei mais de uma vez jogar essa etapa e, em todas as vezes que consegui um julgamento, eu não era aceito. Talvez tenha sido inabilidade minha. Mas a verdade é que essa etapa não tem nenhuma graça e jogar mais de uma vez, só com fins de estudo, mesmo. Em suma, ao julgamento ser recusado, simplesmente NÃO HÁ MAIS NADA A FAZER senão passar o resto da vida no ambiente da detenção ou pedir para ser deportado.

Caso, ainda na primeira etapa, o jogador consiga responder tudo do modo como o jogo espera, ele passa por uma provação final: fugir por um tempo determinado de vários agentes. Caso ele consiga, é-lhe prometido a sua legalização no país. Caso contrário, ele vai para a detenção.

Confesso que, depois da segunda vez em que respondi tudo corretamente e não consegui fugir dos tais agentes, desisti de jogar.

Para baixar o jogo, entre no site oficial ou clique diretamente aqui.

2 comentários:

Alexo Maravalhas disse...

Estou pensando aqui que, como este jogo que pressupõe uma crítica social, não seriam alguns jogos como GTA uma forma de "anti-crítica"? Ou crítica pela exposição do tema?

Henrique Magnani disse...

Eu, como "jogador", adoro o GTA. Aliás, acho que o engine dele seria um caminho através do qual alguns jogos críticos poderiam ser concebidos de maneira menos ingênua.

Agora, eu acho que - como todo artefato cultural - ele possui o seu lado subversivo e o seu lado reprodutor.

Na "casca", é algo extremamente subversivo, embora não num direcionamento ético que desejariam minhas professoras de "Estudos Sociais". Que se mate, que se roube, que se possa se por no lugar daquele que você nunca teria coragem (ao menos, não eu) de se colocar. É uma espécie de "id" de quem passou por filmes de mafiosos, gângsters e bandidos. Há problemas com tudo isso, óbvio, mas também há o caráter da "experimentação", da "polêmica", que é a outra face. Colocar essa possibilidade essa "exposição do tema" em destaque já é algo desestabilizador e pode ser útil para gerar reflexões críticas.

Por outro lado, querendo ou não, o jogo também é reprodutor - o cara é um funcionário, não pode, digamos assim "subverter a própria subversividade". O que ele é, ali, é determinista. Não há arranjos possíveis senão através do roubo e do crime.

Não sei... nesse ponto de partida de se analisar discursos que permeiam jogos, há, ainda, muito mais reflexões e questionamentos do que respostas, propriamente. Mas o que me parece é que não há nada que seja totalmente "subversivo" ou "reprodutor". Nesse sentido, acho que o GTA, dependendo do contexto e do uso, pode tanto se inserir como o que você está propondo como "uma forma de anti-crítica", como "uma crítica pela exposição do tema".

Abraço!

PS: Muito bacana o blog e o site "benzaiten". Pelo visto, ainda teremos muitas figurinhas a trocar...